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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A dança que nos cega



Em segundos me vi envolvida
numa atmosfera de meia-luz vermelha

tensamente morna
que incendiava meus sentidos
e recobria meus olhos marejados
com fina superfície doce.
Era o entorno.

Era ele, com olhos de ressaca
Enlouquecendo na pista
com o som,
com o giro no escuro
do mundo.
Foi assim, quando me pediu um beijo
nada além de um beijo
Sem pesar muito, o dei,
com a alma
condensada na boca.
Lábios, língua, olhos em transe.
Assim percebi no exato instante

em que meus pés ficaram
sem um ponto de apoio

que o mesmo abismo que me conduzia
à queda-livre
também me emocionava e
trazia sublimação

Trazia um ritmo descompensado
a minha dança
em uma noite sem fim.
Nada mais do que uma outra noite
em que o amanhã se funde com a chuva,
com o sol disfarçado
com as notas no asfalto

com a flor que resiste ao medo

e à falta de contato.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

"E a alma aproveita pra ser a matéria e viver..."



A lua ainda brilha
com direito a uma corda bamba iluminada
pela névoa adocicada de seus sonhos.

Sim, estamos acordados.

Quando seguiremos com passos transversais?

É a hora.
O acorde e a singeleza do movimento,
da arte e da destreza...
Somos mais do que uma única massa.
Somos a possibilidade atômica, redimensionada
sem versos, sem prosa
A única verdade possível
no dia que existe sem amanhã.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sinestesia: a percepção aguçada em meio à explosão insone


"De olhos fechados, não me vejo"


Pensei em tornar estas palavras públicas para quem sabe, alguém mais entenda um sentido maior para este "tratado" se é que posso chamar assim...

Você entende bem quando digo que estive cansada, querendo me ver engolida pelo chão em um ciclone invisível. Este cansaço veio de um coração que aprendeu a viver pulsando freneticamente. Quando chega perto do "quase" parar, é hora de me ver dentro desta escuridão tão difusa e não menos densa. Esta escuridão também cega e desata uns outros tantos sentidos. É na escuridão que sinto a definição de formas e o sabor de cores vivas.

Vejo-me deitada em uma piscina de maçãs-verdes e mesmo que sinta vontade de bater braços e pernas procurando uma fonte límpida, algo com algum significado quase místico segura os movimentos, criando uma "quase" inércia que é o desafio das fronteiras com o resto do mundo.

Confesso que às vezes sinto medo ao fechar os olhos. Medo de não enxergar a realidade que minha mente decodifica. Medo de abrir os olhos. Pois ao voltar, a viagem revela o querer intrínseco e rejeita toda e qualquer ilusão criada há tempos pelo sistema.

O sistema pode ser condicionante e ele já me sufocara tantas vezes que preferi habitar a linha tênue entre mundos. Para reinventar talvez a possibilidade de ser e deixar de ser em segundos-luz... Demorei um tempo ou um espaço para perceber que as reinvenções também podem ser ciladas de um jogo de ilusão mortal. E não é exagero falar em "mortal", pois o que vejo ao meu lado é um exército de zumbis que já abriram mão de viver e sonham com um tempo de sobrevida que lhes parece a fórmula da felicidade.

E de que é feita esta viagem sem volta? Quais os passos dentro desta dança circular de desencanto? "Desencanto" que não é triste nem sôfrego. É simples despertar da manhã.

Existir uma busca maior é a própria viagem. É reconhecer em outros olhos a própria chama especular da expressão de humanidade. Aprender a sorrir e chorar com todos os vícios que um mundo doente apresenta desde muito cedo. Entender que o pulsar também se solidifica a cada minuto engavetado. Que a carne é fraca e perde a rigidez com uma alma subnutrida...

Não quero parar, não tenho medo do que ficou para trás... As pedras têm sua poesia, assim como o sangue do animal ferido. Esta é uma guerra com uma dualidade dilacerante, sim. Deixei para trás o colírio, o véu que cobrira meu rosto, o poço transbordando experiências e várias pedras que um dia virarão estrelas, quem sabe? Por que será que quando falo em caminho, algo tão sedimentado e árido se forma no imaginário?

Caminho por um tapete tridimensional que a qualquer momento pode entrar em um buraco-negro no espaço. Talvez não haja o outro lado... e o espelho seja o infinito. Mesmo que entre e que perca o tapete que me carrega, estou pronta para me testar e assumir esta condução que pode ser uma queda magicamente alucinante de uma Alice sem país ou maravilhas, ou apenas um fim mais próximo da explosão.

Afinal, somos luz...




Para F., com estima.

Le Grand Finalle: não há expectativas neste tabuleiro suspenso


...

É mais fácil manter o platonismo do amor casto inatingível quando optamos por terminar uma história antes do grand finalle...

É o platônico desejo que arrebata os sentidos mais refinados.
Desejo de se ver em um desenho perfeitamente alinhado com o pôr-do-sol no horizonte, com a superfície da maçã vitrificada pelo doce sabor, com um céu estrelado e com a sensação da serenidade que se apresenta tão palpável.

É o platônico pensamento que transforma uma história em um caminho de regeneração, de transcendência e de sabedoria superior.
E nada mais é do que a ilusão estéril que finge suportar a solidão real e verdadeiramente possível, sem peças perfeitas, nem passos demarcados...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O cego e a serpente

Não mais que de repente
no segundo surdino
a serpente ondula uma dança trepidante
E envolve o cego, cansado da estrada
com buracos irregulares (seriam reais?)
Descompassado corpo, sem ver
horizonte algum que justifique
um nascer do sol
uma lua em sonata.

O cego e a serpente
seguem, amantes
em veias obliterantes
e possível apenas para os seres
de memória sensorial.

Sem memória, não há pecado

não há um único juízo final
Só existe a supremacia
latente
o prêmio intocado
a música arquitetada
e os sentidos dilatados.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Nos tempos de corrente, uma afonia aberrante




Um grande susto com o grito

que o tempo não silenciou

Um estar tão intransitivo

quanto alegórico

Um sentir tão insustentável

quanto as molas que romperam

a suspensão helicoidal em plena queda

Isso foi ontem...

o passado parece tão distante

E tão dentro que já virou uma vitrine

luminescente sem janelas.



Fora não existe
Está tudo ali
ao lado de
à espera de alguma
onda sinestésica

onde a onda lava a minha alma
onde a dor é doce
como a vida



Transladação


O UNIVERSO


Galáxia e mente em dispersão cósmica

Ali, fiquei

sentada sem sala de espera

sem chá, nem poluentes visuais

Fiquei sentada, com pouco sal

e sem lentes ou orifícios mágicos

a traduzir ou transgredir

a elipse que o tempo formava.




Por fora da ostra...



Hora de sair
de casa, da sala,
do olho do casulo.
Hora de descer as escadas
e olhar para as sombras
até se sentir cegada.
Hora de esticar as mãos,
a carne, o corpo
e dilapidar cada verdade
com uma resiliência quase supérflua
quase sublime
e quase invisível à
deformação humana.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Voilà le portrait sans retouche*



Paralisada, mas com olhos atentos
Logo estarei de volta
Pela eternidade desta viagem

Logo volto!

Sem mãos aflitas

Com olhos de luzes
Que observam o desmanchar da noite.



Alguém tentou desesperadamente
Sentir algo decente
...

Vento novo, flores e cores
...
Nos meus olhos molhados
E vejo a vida tão diferente

(retirado de A inocência do prazer - Cazuza)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Trapaças*

Ali, parada
espremida entre paredes invisíveis
a compressão de uma mente
que brinda à insanidade

Ali, extasiada
pela significação de um maior amor
a expansão de uma mente
que recria a intensidade

Com passos tortuosos
respiração ofegante, com sutil deselegância
sôfrega e sincera
sem distinguir se é o caminho
sem definir se é mesmo o caminho

Deixei a composição,
a vela acesa,
o disco arranhado, ainda com agulha
a palavra sem rascunho,
e um silêncio imaculado
esgotado
em minutos reavaliados.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Doce invenção


Bala de goma, ciranda de pedra
Arco-íris aquarelável
com nuvens de algodão-doce
Doce pequeno ser
na aurora da fantasia
Doce sabor de pureza
em uma terra de gigantes
sonhadores
Fadas sobrevoam
a areia iluminada pelos
olhos de luzes
Notas musicais
malabares em árvores
a transformar
silenciosas taturanas
em bolhas mágicas, borboletas
Voa, em doce balão azul anil
desprenda confetes em lágrimas
Seja livre!

domingo, 2 de novembro de 2008

Longe dos olhos, perto do fogo


Fora da ordem dos sentidos
Rompendo agora, com o mundo

Estou à parte, divagando

Em uma atmosfera sem estrelas,

em um universo embrutecido.

Serenamente, te vi partir

Em segredo, espero ver tua sombra incandescente

Na água de tão límpida cachoeira.


Desejo arrancar a punhaladas cósmicas

Esta minha espera fora da ordem

e da lógica
Desejo arranhar o céu e tornar a água da chuva

letal ao meu coração

Desejo dilacerar o que quer que esteja aqui dentro,

em um silêncio perturbador
com a verdade de minha alma.

Pois o que desejo, ainda não tem nome
O que desejo, escapa-me pelas mãos,
salta e torna a bala perdida...
O que desejo foge do controle
e do maniqueísmo das relações
O que desejo está em mim, e não contigo,
aonde quer que esteja.

........................................................

De repente vi que o que buscava

não haveria de ter mesmo um nome

nem classificação alguma

Pois atônita fico, ao simples sentir

com minúsculas ações que me emocionam

com os olhos de luzes, das fabulosas crianças
Pois emotiva sou, em minha veste

camaleônica e viva

Para quem desejar,
cuspo o fogo com o nascer do dia

Para quem caminhar,
teço os segundos em flores
jasmínicas coloridas
Para quem sonhar,
lanço-me em nuvens crepusculares, livre
Para quem parar, não digo nada
Deixo que fique e dali veja o impossível.

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Trilha sonora: NUDE - Radiohead


Don't get any big ideas

They're not gonna happen

You paint yourself white
And feel up with noise

But there'll be something missing

Now that you've found it, it's gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails

...
Don't go, you'll only want to come back again.



sábado, 1 de novembro de 2008

A insônia despercebida


Ouve quem pode... o resto brinca de sono-fantasia!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sem dimensões

Entre planos
brotam círculos negros
Entre pousos
brotam libélulas sonhadoras
Entre musgos
ressoam buracos-negros
Estou em qualquer plano
sem ser, sideral.


Aviste o submarino!

Preciso dizer algo?


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A sombra de uma janela



Em sonho. Isabela aguardava a próxima estação. Aérea... doce e distante. Mente aberta para qualquer lugar... Olhava toda a paisagem que cabia nas margens da janela, mesmo que seus olhos indicassem uma mente eternamente insone. Era sonho ou realidade? Não haveria tempo para questionamentos temporais. Anoitecia, lá fora. Dentro dela, sentia-se tomada integralmente por uma brisa morna. Amolecia. Sentia-se inchada. A pele, as camadas mais profundas, o sangue. Universo extra-sensorial? Incompreensão. Um vôo dentro dela. E virava uma massa única, uniforme.

Hora de descer.
Para onde? Para que lado? Qual a direção da luz?

Pouco importava. Bela sentia-se plena para o passo, cuja sombra seria enterrada no asfasto selvagem. Sem sombras, livre seguia, ao encontro da grande revelação.





Revira e volta
Sonho projetado
em tantas janelas.
Refaz e transforma
a luz da lua
em derivados sentidos.

Eu sou o lobo do homem
Enquanto ele esteve dormindo
Eu sou a fera além da mulher
Enquanto ela esteve sentindo
Sólida mente que parte
com o vento que entra,
pela janela aberta
Remoto controle que rompe
com qualquer vestígio
pelo impulso de qualquer crença.

Partimos, sem pistas
Ao abismo!

COLORIDO.


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Entre feras e deuses - I - Ártemis



"...Os cumes das altas montanhas tremem, e pela floresta em sombras ecoa os gritos assustados das feras dos bosques; a Terra treme, assim como o faz o mar, cheio de peixes. Mas a deusa de valente coração se vira para todos os lados destruindo a raça das feras selvagens: e quando está satisfeita e alegrou seu coração, esta caçadora solta seu arco e parte para a grande casa do seu querido irmão Apolo, para a rica terra de Delfos, para lá comandar a dança das Musas e das Graças."


*Trecho extraído dos Hinos Homéricos



Arte em transe
Arco e flexa, devaneio
Dispara longe!

Avidez à luz da flora
Faunos, rápidos, claro espasmo
cintilante!

Voa longe para o alvo
estrangeiro sorrateiro
Animal acelerado
Animal que nem se move

Mente sã no caos elástico
Rompe a teia que se forma

Vê com olhos que explodem
Lucidez ao que me toca



Luta sem o que te tente.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Era da Luz


Era tarde, mas parecia o início de um novo dia.
Tamanha claridade, que quase cegava seus olhos negros. Era o laranja intenso do sol que se recolhia, na posição contrária ao horizonte. Estava ali... faixa luminescente que carreava 1000 percepções por segundo. Preferiu fechar os olhos e sentir a delicadeza da vibração dos cílios aflitos... ávidos pelo latente amor que vinha do sol.
Era ele... somente ELE. O sol vosso de cada dia. Sua luz era profundamente sonora, com suspensões desenhadas pela divindade do universo. Era energia. Perfazendo o caminho que criava a intersecção entre espaço e tempo.
Estava ali. Com olhos fechados e corpo adormecido pelo êxtase da luz e do calor. Sem perceber, flutuava. O campo de flores microscópicas havia ficado a alguns centímetros... e sua luz fecundava a natureza que resistia a condições inóspitas, agrestes. Fecundava luz e recriava a infinitude. Lascivo repouso, suspenso.






Trilha sonora: O amor que move o sol - Egberto Gismonti


sábado, 18 de outubro de 2008

Bárbara!



"Corre menina, corre que vai se atrasar."

E lá saía ela, uma mochila nas costas os cabelos soltos, os anéis castanhos, quase revoltos, um cheiro de lavanda. Limpinha. Corria para o ônibus. Coisa mais sem poesia na vida é andar de ônibus, mas não para um rapaz que estava ali naquela hora. Barbara chega apressada e se joga ao seu lado. O decote displicente mostra o seio branco, franco, macio. Isso é poesia. O sorriso dela não percebe a alegria dele. Barbara desce antes e corre.

O coração do menino correu junto. Pena que não a alcançou.

*Texto-testículo de Lucas Canha, extraído de www.nageladeira.blogspot.com

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Contra o tempo
Corra!
Sem tempo para a desesperança.
Com o vento
Viagem sem rotas
Horizonte contínuo.
Com o tempo,
O vento
no sonho do homem desconhecido.



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Bárbara. Sempre gostara deste nome. Parecia forte, livre.
Forte mesmo era o seu primo, que a suspendia no ar, como se assim pudesse tocar o mundo das fadas.
Desde criança, era Bárbara a menina dos olhos da vizinhança... leve, com vestidos coloridos, cabelos despenteados de forma tão displicente. Passava horas no balanço, entretida pelas sombras desenhadas na areia, sem perceber que era observada por diversos ângulos.
Ficava ali, entretida em um reduto de fantasia e solidão, no mesmo vazio que a acometeria anos mais tarde... tomada por inteiro, pelo sol que queimava a carne e a alma de uma pequena pureza que deixara de pertencer a todos ao seu redor, escondidos em suas casas de areia...


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Surrealismo caótico



Estamos dentro, mas assistimos a tudo de fora
Sentados em nuvens, tocamos a paz?
Não há nada além da ilusão de controle.

Queimando as pontes construídas
E ver o sonho fundido na fumaça branca
O que existe além da ilusão de óptica?

Você brinca de rei, na terra do caos
Em um tabuleiro tridimensional
Enquanto o próprio caos se remonta na forma
de rosa mística
E nos convida para mais uma dança...

Sim!
Estamos no centro do fogo
Envolvidos pelo próprio caos,
enovelados pela atmosfera dos sonhos
E não há definição de domínios espaciais ou temporais
Apenas somos tudo o que nos consome a alma

Sinta o sabor de todo contraste
Deixe os pulsos expostos
O caos nos seduz
à luz da verdade.


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Trilha sonora: High Hopes (Pink Floyd)

beyond the horizon of the place we lived when we were young
In a world of magnets and miracles
our thoughts strayed constantly and without boundary
The ringing of the division bell had began
...
At a higher altitude with flag unfuried
We reached the dizzy heights of that dreamed of world
...


terça-feira, 14 de outubro de 2008

O lustre* - A hora de desprender luz




Liberta-te!
Trocadilhos metamórficos
dos elementos.
Que viagem rumo
ao topo da existência
onde sou fera, serpente,
fruta e ser assexuado.

Liberta-te!
É tempo de florescer
e renascer luminescente.
A gota límpida
e translúcida, que escorre
singela e pura de minha alma.

Libertemos a dor
que sufoca, prolifera e trucida,
mazelas humanas
pelos cantos do mundo.

Liberta-te!
Cítrica e ávida,
na
vastidão dos sentidos.



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FRAGMENTOS*

* Trechos de O Lustre, de Clarice Lispector.


No entanto ele formara no seu interior um núcleo longínquo e vivo e jamais perdera a magia - sustentava-a sua vaguidão insolúvel como a única realidade que para ela sempre deveria ser a perdida.
...

As folhas cobertas de poeira, as folhas espessas e úmidas das margens, o rio rolava.
Quis responder e dizer que sim, que sim! ardentemente, quase feliz, rindo com os lábios secos... mas não podia falar, não sabia respirar; como perturbava. Com os olhos dilatados, o rosto de súbito pequeno e sem cor, ela assentiu cautelosamente com a cabeça. O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furio­samente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra pálida que fosse.

O Lustre

Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino.

...

Andando pela estrada, o sangue voltara a bater com ritmo nas suas veias, eles se adiantavam depressa, juntos. Sob o céu brilhante o dia vibrava no seu último momento antes da noite, nos atalhos e nas árvores o silêncio se concentrava pesado de mormaço — ela sentia nas costas os últimos raios mornos de sol, as nuvens grossas tensamente douradas.



Eles olhavam para a frente o corpo aguçado — havia uma ameaça de transição no ar que se respirava... o próximo instante traria um grito e alguma coisa perplexamente se destruiria, ou a noite leve amansaria de súbito aquela existência excessiva, bruta e solitária. Eles caminhavam rápidos. Fazia um perfume que dilatava o coração.

...

Os vagalumes abriam pontos lívidos na penumbra. Pararam um momento indecisos na escuridão antes de se misturarem aos que não sabiam, olhando-se como pela última vez.

...
Mergulhando os olhos na cegueira da escuridão, os senti­dos pulsando no espaço gelado e cortante; nada perceberia senão a quie­tude em sombra, os galhos retorcidos e imóveis... a longa extensão per­dendo os limites em súbita e insondável neblina — lá estava o limite do mundo possível.
...

Os olhos ganharam uma vida perspi­caz e cintilante, exclamações contidas doíam no seu peito estreito; a in­compreensão árdua e asfixiada precipitava seu coração no escuro da noite.
...
Avançava trêmula adiante de si mesma, voava com os sentidos para a frente atravessando o ar tenso e perfumado da noite nova.
...

En­tão — não era o alívio nem de fim de susto, mas em si mesmo inexplicável, vivo e misterioso — então ela sentiu um longo, claro, alto instante aberto dentro de si...


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Pulsações - Dentro do sol



Sim, cada palavra lida na vida desnuda que revoluciona aqui dentro.
Cada passo em direção à fusão... à energia e à dissincronia.
Despressurizar tudo o que já esteve escondido e estabilizado, para tornar-se matéria viva, dilacerante.

Não suponho o que seja o dia depois deste exato momento - existe algo de muito superior a qualquer estado da matéria.
Já deixei as janelas todas abertas para que o passado se recrie em um jogo de armar, leve e lúdico... origamis de experiência-lembrança que edificaram minha obra para o agora.
Agora me deixo só na exatidão deste instante , em que só o presente me remonta e reanima, com o calor do sol a invadir minha matéria.
O presente em antítese integral, que inspira o passo e o tombo ao mesmo tempo.
Queda livre, com a voracidade selvagem de ser.
Braços abertos e coração liberto.
O que me tornarei? Impossível prever. Oscilo e danço em um pêndulo gigante, suspendendo meu corpo e meu espírito... O vento é a ânsia precisa por me sentir dissipada. É este o segundo em que me vejo a única verdade possível.
O futuro não me cabe. Meus ombros e pálpebras não o suportam. É apenas o presente que me toca, em um jogo de dominó desempilhado. As peças reluzem, e o sol, hoje, queima e transforma meus sentidos.



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Lost in thought and lost in time
While the seeds of lifeand the seeds of change were planted

Outside the rain fell dark and slow
While I pondered on this dangerous but irresistible pastime
I took a heavenly ride through our silence
I knew the moment had arrived
For killing the past and coming back to life

I took a heavenly ride through our silence
I knew the waiting had begun
And headed straight..into the shining sun


*Lyrics by Pink Floyd - Coming back to life


What do you want from me?





Fechar os olhos de fora. E abrir a parabólica de dentro...
Sou um sensor sem senso comum, que escolheu a captação sonora de existências contraditórias. Alguém esteve presente, no andar de cima. Sapateados ao anoitecer...
Ouço o inaudível, e sinto-me livre, e ao mesmo tempo distante de tudo. Anos-luz para me encontrar novamente. Estou voando na minha absurda falta de lógica.
Não poderia mudar a posição das pétalas despedaçadas nos jardins selvagens... mas me transformo aleatoriamente na metáfora além do risco...risco de ser, de me perder, de ser encontrada, de estar distante do meu “eu” espacial, de ver as entrelinhas recortadas pelos outros, pelo todo.
Inicia-se um novo ciclo, dentro do próprio círculo de fogo... algo que dificilmente será encontrado pela consciência daqueles que estão na superfície...
Metáfora-camaleoa que brinca no princípio de mais um dia.


You can have anything you want
You can drift, you can dream, even walk on water
Anything you want

Vozes ressonantes me conduzem.
As marcas dos passos são termossensíveis a extremos. Caminho sob pedras, de água-viva.
Medusas e pólipos encantadores, suprimidos pela falta de sonho dos homens...

You can own everything you see
Sell your soul for complete control
Is that really what you need

Absinto dilacerante que remonta ilusões.
Remoto controle de emoções, em um trem descarrilhando pela montanha-russa
Você está perdido?

You can lose yourself this night
See inside there is nothing to hide
Turn and face the light

Entrego-me à luz.
E a partir dela, recrio a poesia dilatada pelo toque de minhas mãos,abstratas.




*What do you want from me - lyrics by Pink Floyd

domingo, 12 de outubro de 2008

Pulsações - Como nascem as estrelas?



E assim nasceram flores no campo celeste...
ESTRELAS.

Se um buscou furar o céu da primavera
com um cometa veloz e totipotente

Outro silenciou na aridez serena
das noites no deserto

De volta ao prado, aos prantos
onde a expressão do movimento
encontra-se distorcida pelo tempo

Sou aquela, e não a outra
que sonhara com o inatingível
universo liquefeito
em música, caos e poesia.



Tu, ser de unidade clarividente! Preparo com minhas próprias mãos, sem luvas radioativas, parabólas em sonata, sinestesia e sincronismo... Parte para todos os lados, neste abismo elipsóide... que não existe retorno ao porto invisível.Esta é a grande miragem desmistificada.
São tantos caminhos, partidas e chegadas... que não se sabe mais para que lado fica o princípio e o precipício, muito além das palavras. A leveza e a destreza de tantos encontros, mesmo que nos desencantos, trazem a visão paradisíaca desta pulsação vital e sonora, que torna crua a nudez de toda alma...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ritual II - Sem olhos



Desconheço sua face
O que vejo é o que sinto
O que vês, não pode ser traduzido

Os amantes
brincam na aurora entorpecida
escondem secretos desejos
no indizível mundo dos homens

Os amantes
arrebentam a tenacidade das fronteiras
Onde o sonho revela-se em vertigem
miticamente poética
miticamente possível

Desconheça o que pretensiosamente busca
em outros olhos, ao amanhecer
E sem livre-arbítrio entregue-se
pois o amor não tem dia, nem noite
apenas cores metafísicas no infinito...


Crédito de Imagem: Os Amantes - Rene Magritte

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ritual I - A palavra





O tempo que tenho é pouco
Um pouco de tamanha intensidade
que muito transfere: atomicamente ativa

Pouco tenho a oferecer ao banquete de formigas
força lúcida para a luta glasnóstica,
sem teto e sem desordem no movimento

Sou a sua como qualquer outra
palavra que ficou na limítrofe superfície
afundada na invisível estratosfera

Fundida, no fundo do fogo
A palavra, no revés da lógica
dilata o signo
e recria o símbolo

Parte desprendida em poesia
organizando a prece particulada
com senso de infinito
com gestos sem vestígios
com letras orquestradas:

A música do precipício.


Crédito Imagem: Renè Magritte


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Echoes




Cada relacionamento nos propõe algo. E não é exterior... propõe uma nova ordem interior.


Speak to me/Breathe


Ouvir pink floyd sempre me levou pra longe... tão longe e tão profundamente ao encontro com a verdade que está aqui do lado de dentro. Casou perfeitamente com a percepção de mundo que vinha se revelando... matéria e pensamento.


Learning to fly


Uma amiga esteve com o olhar distante, visceralmente cansada do mundo... o peixe pulara do aquário. Capitu desprendeu toda a opacidade que a emudecia, saltou, em uma manhã ensolarada, com sombrinha vermelha e agora consegue transar uma arte surrealista ao som de Heart of Glass...


Um amigo esteve sentado na encosta... recobrando o fôlego. Fazia de si o próprio cavalo, treinado para uma guerra nunca vista. A armadura tinha aparentemente a forma do mundo, para que pudesse canalizar o que fosse necessário para manter o sonho dentro do sonho. E conseguiu levantar-se a tempo de seguir com o vento, para o desconhecido...

Um anônimo cruzou a grande avenida a passos largos e firmes, cintilando na luminosidade da metrópole. Seus olhos só diziam algo para ela, que estava do outro lado, no revés da highway. Virou-se por um segundo. Ela não mais existia ali. Existiu em algum lugar..?


Será que nestas palavras vou me permitir ser transparente? Ápice.



A verdade e nada além dela.


Shine on you crazy diamond.





A transformação do tabu em totem





Domador: - Nós somos a caricatura da eterna luta dos sexos, bailarina... Se eu não masoquizar o prazer, o que seria da ordem patriarcal do mundo?... O prazer livre e irrestrito é anarquia, a loucura e a quebra dos mecanismos da sociedade... A mulher é o prazer total, e eu sou o domador desta consciência.

Bailarina: - Tirano de si mesmo, liberta-te! Quem doma o prazer total é o amor e não o chicote... Não se paga o prazer com a dor, mas com o amor... eu sou a consciência, e você é a repressão. Esta é uma luta primordial...


(José Roberto Aguilar - A Divina Comédia Brasileira)


Crédito de imagem: Carlos Florêncio


Suspende
prensa
presa minha

Surpreende
suspenso
próprio peso

Sacrifica
sádica
suave movimento

Simboliza
sincronia
de pólos ardendo.

O silêncio





Deitada em posição fetal

fechada para apenas me sentir
sentir a dor nas entranhas.

Não quero que nada externo
me afete, perfure ou atinja.
Deixe-me só
para apenas me sentir

e refletir sobre meus passos
neste mundo.

Não posso exposições neste momento
quando tudo ainda está turvo
Preciso encontrar estrelas
em minha noite
silenciosa,
assim como um feto

buscando proteção imaginária.

Deixe-me
no meu estático silêncio

procuro flores para me dar
quando
amanhecer
e o sol descolar minha retina.

O feto nada para o nada
e distante fica
dos desencontros com
outro olhar,
de outros corpos

buscando-se no vazio
que não me preenche.


quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Olhos fechados. É a primavera...




Um cansaço visceral. De ser, de brincar de entender o que nem sempre quero ver.
O baile começou... mas me sinto distante, atraída pelo frescor da noite, lá fora.
Estou cansada. De tanto, de todos, de mim, por tão pouco. Talvez não seja nada... apenas a primavera que chega, bela.
Meus ombros dóem, as pálpebras pesam. Pupilas dilatadas pelo sal aguado que insiste em surgir, mesmo quando me sinto esgotada pela noite insone. O dia logo renasce e estou parada no ponto em que me perco todos os segundos.
Observar a movimentação lá fora exige tanto e tanto... no entanto, não me lembro em que momento resolvi dar início ao processo..? Existiu mesmo, em algum tempo, um divisor de águas..? Estas águas densas e nefastas? Em que momento passei a sentir esta dor mais forte? Uma dor pela morte emocional diária, de todos. O êxtase da descoberta velada nos olhares.
Claridade e escuridão se completam e coexistem, mesmo em eterna crise de percepção... É só a primavera, que chega, suave e bela...





Trilha sonora:

November

Azure Ray

So i'm waiting for this test to end
So these lighter days can soon begin
I'll be alone but maybe more carefree
Like a kite that floats so effortlessly
I was afraid to be alone
Now im scared thats how id like to be
All these faces none the same
How can there be so many personalities
So many lifeless empty hands
So many hearts in great demand
And now my sorrow seems so far away
Until i'm taken by these bolts of pain
But i turn them off and tuck them away
till these rainy days that make them stay
And then i'll cry so hard to these sad songs
And the words still ring, once here now gone
And they echo through my head everyday
And i dont think they'll ever go away
Just like thinking of your childhood home
But we cant go back we're on our own
Oh,
But i'm about to give this one more shot
And find it in myself
Ill find it in myself
So were speeding towards that time of year
To the day that marks you're not here
And i think i'll want to be alone
So please understand that i dont answer the phone
I'll just sit and stare at my deep blue walls
Until i can see nothing at all
Only particles some fast some slow
All my eyes can see is all i know
Ohh..
But i'm about to give this one more shot
And find it in myself
I'll find it in myself





Faça-se a luz




Mova-se pleno
Mesmo no deseqüilíbrio
Desconecte e realce os canais
e o caminho da dança
no infinito

Solte as amarras
e a areia fina pelos dedos das mãos
Sem tempo para parar
ofegante e com ritmo
Sinta cada sentido
neste cósmico espaço anil
do desafio.



Trechos de Mindwalk, de encontro com a claridade destes dias:

E como a luz, muitas outras partículas de alta energia, os raios cósmicos bombardeiam a Terra. Todas estas partículas colidem com o ar e criam mais partículas. Interagem, criam e destroem outras partículas e nós estamos no meio da dança cósmica de criação e destruição... todos nós, todo o tempo.
***

*Shiva, o deus hindu da dança.

Os hindus crêem que a dança deles sustenta o universo, que a dança deles é universo, um fluxo contínuo de energia passando por infinitos padrões que se dissolvem uns nos outros.
***

A vida é auto-organizadora. Um sistema vivo se mantém, se renova e se transcende sozinho... se estende e cria novas formas. A dinâmica evolutiva básica não é a adaptação, é a criatividade... Cada organismo vivo tem potencial para a criatividade, para surpreender e transcender a si mesmo...
***

...evolução é muito mais do que adaptação ao meio ambiente. O que é o meio ambiente senão um sistema vivo que evolui e se adapta criativamente? Eles co-evoluem. A evolução é uma dança em progresso...